CPI da Alesp ouve responsáveis por fabricar e transportar pílula do câncer

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Fosfoetanolamina, da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), que investiga se houve falhas na pesquisa que levou à proibição da chamada pílula do câncer, ouviu hoje (6) mais três pessoas.

Nas audiências, os deputados têm ouvido pessoas que participaram de todo o processo da pesquisa, desde a síntese da substância no laboratório PDT-Pharma, o encapsulamento na Fundação para o Remédio Popular (Furp), o transporte até o Instituto do Câncer do estado de São Paulo (Icesp) e a distribuição da pílula aos pacientes de câncer submetidos ao estudo.

Participaram da audiência desta quarta-feira o diretor da PDT-Pharma, Sergio Perussi; o chefe de transporte da Furp, Célio Joaquim Paes; e o farmacêutico Gidel Soares, também da fundação. Mais três pessoas haviam sido convocadas, mas, segundo o presidente da CPI, deputado Roberto Massafera (PSDB), alegaram estar em viagem a trabalho e não compareceram.

Primeiro a falar, Perussi, do laboratório PDT-Pharma, negou em seu depoimento que tenha havido erros ou manipulações na entrega da fosfoetanolamina à Fundação para o Remédio Popular. “Durante o transporte da PDT-Pharma até a Furp não [houve falhas] porque ele era feito diretamente por mim. Eu, como diretor, tinha responsabilidade muito grande com a segurança do produto. Entreguei os três lotes diretamente à Furp. Então, nesse processo, nada aconteceu”, afirmou. “Minha visão dentro do processo é que ele transcorreu dentro da normalidade. O que aconteceu depois que entregamos à Furp eu já não posso dizer nada”, acrescentou.

Em seguida, o chefe de transporte da Furp, Célio Joaquim Paes, disse aos deputados que recebeu a fosfoetanolamina sintetizada na PDT-Pharma e encaminhou a substância encapsulada para o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), onde foi feita a pesquisa. No total, segundo ele, foram feitas quatro viagens para transportar a substância: duas em 2016 e duas este ano.

O último a ser ouvido foi Gidel Soares, farmacêutico responsável da Furp, que falou sobre o problema na manipulação da substância e na dificuldade para que ela fosse encapsulada. Segundo ele, foi preciso acrescentar uma substância inerte à fosfoetanolamina, mas garantiu que o componente não tem impacto no efeito do produto.

“Como usamos máquinas automáticas, em função da característica do composto, a máquina não conseguiu fazer o envase [da fosfoetanolamina pura]. Ela grudava em todos os componentes da máquina. Então, normalmente, como todos os produtos do mercado, a gente adiciona algum componente para auxiliar nesse envase. Normalmente [esse componente] não [altera a substância]. A quantidade é muito pequena. Colocamos o mínimo possível para evitar a aderência no equipamento e outra para facilitar o escoamento do pó”, explicou. “Tudo foi controlado, acompanhado. Tem o sistema de qualidade que aprova e acompanha todo o processo. Em fase alguma teria havido qualquer irregularidade”, acrescentou.

Avaliação

Para o presidente da CPI, os depoimentos colhidos até agora não apontaram falhas na pesquisa. “Estamos rastreando. Até hoje chegamos na Furp. Daqui para a frente vamos para o Icesp rastrear o que os pacientes tomaram, se o que eles tomaram estava correto. Estamos seguindo o caminho para verificar se o protocolo de pesquisa da síntese da fosfoetanolamina foi cumprido”, disse Massafera.

O relator da CPI, Ricardo Madalena (PR), disse que os depoimentos trouxeram informações preocupantes, sem especificar quais, e afirmou que irá apontar eventuais problemas na pesquisa em seu relatório final. “Estamos colhendo informações para poder fazer o relatório com imparcialidade, com prudência, com transparência e com responsabilidade. Muitas coisas que foram ditas aqui são temerárias”.

“Não estamos aqui para dizer se a pilula funciona ou não funciona. Nós estamos aqui para apurar se o protocolo da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] foi cumprido, se a determinação daquilo que foi combinado entre os auditores e a equipe do Icesp foi cumprido, se não houve cerceamento. É isso que estamos apurando”, acrescentou.

Histórico

Sintetizada há mais de 20 anos, a fosfoetanolamina foi estudada pelo professor aposentado Gilberto Orivaldo Chierice quando ele era ligado ao Grupo de Química Analítica e Tecnologia de Polímeros da USP, campus de São Carlos. Algumas pessoas passaram a usar as cápsulas contendo a substância, produzidas pelo professor, como medicamento contra o câncer.

A pílula gerou polêmica no país. Ela vinha sendo distribuída a pacientes oncológicos mesmo sem ter sido testada e comprovada por testes clínicos e sem registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A distribuição foi proibida e diversas pessoas começaram a entrar na Justiça pedindo acesso à substância. Testes clínicos em humanos então começaram a ser realizados em São Paulo para testar a eficácia da droga.

Os testes foram conduzidos pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, com acompanhamento de Chierice. Em março deste ano, o Icesp concluiu pela falta de comprovação da eficácia da substância no combate ao câncer. Segundo a pesquisa, de 73 pacientes com tumores sólidos avançados tratados com a pílula do câncer, apenas um obteve resposta parcial com uso da fosfoetanolamina.




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